José Abílio Coelho
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“Não há farmácia para certos males”

Por José Abílio Coelho

Bernardino morreu aos noventa e sete anos de idade, após quatro semanas de más disposições. Encomendado o serviço pelo único primo que lhe restava e era quase da sua idade, o armador estendeu-o num caixão de baixo custo com a compostura de quem, afinal, tivera sempre distinta presença.
Deitado naquela urna de madeira, não sabia explicar como… mas via. E ouvia. Melhor ainda do que em vida, quando os ouvidos já se lhe tinham habituado a selecionar apenas o que interessava: a tosse funda do bronquítico, o choro contido da mãe desesperada, o sussurro envergonhado de quem pedia um remédio fiado. Agora, ali deitado, via tudo com uma nitidez decente. O teto da capela-mor parecia-lhe exageradamente acolhedor, e os rostos que passavam diante do caixão tinham a solenidade estudada de quem entra num palco sem ter ensaiado.
— Coitadinho do senhor Bernardino… — dizia uma voz compungida, que ele reconheceu como sendo a da mulher do antigo presidente da junta, a mesma que nunca lhe perdoara uma quadra escrita num papel Costaneira onde se falava de promessas eleitorais nunca cumpridas.
Bernardino quase sorriu.
Servira na botica da terra durante quase oitenta anos, desde o tempo em que os frascos eram lavados e reutilizados e a ciência se aprendia mais pelo erro do que pelos livros. Entrara ali aos doze anos, calado e magro, vindo de uma casa pobre onde o afeto tinha mais importância do que o dinheiro. Aprendera a pesar pós, a macerar folhas, a desconfiar das doses excessivas e de curas milagrosas. Aprendera, sobretudo, a ouvir. E foi esse talento que o fez farmacêutico sem diploma aos olhos da população pobre, embora nunca aos olhos dos letrados.
Nunca quis riqueza. O salário dava bem para a comida, para a pouca roupa de que precisava, para o papel em que escrevia. Quando lhe falaram em ir para a cidade, para o sítio onde sobeja luz e fartura, respondera, com um encolher de ombros, que a aldeia lhe bastava. A velha farmácia tinha paredes acolhedoras e memória, e isso era mais do que qualquer vitrine mo-derna podia oferecer-lhe.
— Um homem tão simples — murmurava agora um senhor alto, careca, de gravata escura e gabardina cintada, que Bernardino recordava por ser vaidoso e inte-resseiro e por se sentar sempre na fila da frente em qualquer cerimónia pública, mesmo que o lugar não fosse seu por direito. — Um exemplo de humildade!…
Humildade, pensou Bernardino, era saber que a vida se faz de remendos. E ele passara-a a remendar gente. Às vezes com comprimidos, outras com palavras, muitas outras com um abraço. Aviava remédios como quem distribui esperança em doses pequenas, para não provocar efeitos secundários.
O seu defeito, diziam os importantes, era a caneta. Uma caneta barata, de tinta azul, daquelas de encher no tinteiro, mas que ele usava como um bisturi. Com ela escrevia poemas tortos e prosas direitas, onde apontava os desmandos dos que mandavam, as injustiças que se tornavam hábito, os abusos mascarados de tradição. Como não tinha onde publicar os escritos, oferecia-os manuscritos a amigos e conhecidos como quem oferece um chá, sabendo que em terra pequena chegavam sempre ao conhecimento daqueles a quem se destinavam.
Os importantes da localidade não lhe perdoavam tais abusos. Sorriam-lhe em público e fechavam-lhe as portas em privado. Já os mais pobres, agradecidos, mas cautelosos, aceitavam os remédios e os versos, mas, temerosos, guardavam estes nas gavetas do silêncio. Em terra pequena, o medo, como certas doenças, também é hereditário.
Agora todos ali vinham, ao desfile organizado pela morte, essa democrata. Na missa, o padre dizia palavras que levam qualquer morto ao céu. Falava de serviço, de dedicação, de exemplo. Bernardino reparou que não mencionara uma única vez a sua poesia, as suas prosas ácidas.
— Era um bom homem — declarou um comerciante que ia recorrentemente ao gabinete do presidente para lhe denunciar as prosas.
— Sempre pronto a ajudar — acrescentou outro, que lhe negara uma camisa a crédito numa época de vacas magras.
Bernardino escutava, atento. E quanto mais ouvia, mais se lhe aguçava o humor. Aquilo parecia-lhe uma última receita mal-aviada: muitos elogios, nenhuma contraindicação mencionada.
Passou diante dele um rapaz novo, neto de um antigo doente. Este olhou-o com curiosidade sincera, sem a máscara do dever. Bernardino gostou daquele olhar. Havia ainda esperança, afinal.
Se pudesse mexer-se, levantaria uma sobrancelha. Se pudesse falar, pediria silêncio para declamar um poema. Mas não, restava-lhe observar. E rir. Rir para dentro, como sempre fizera quando percebia que o mundo preferia a aparência à substância.
Quando fecharam as tampas do caixão, para finalmente o darem à terra, sentiu apenas intensificar-se o cheiro de flores cansadas e secar-se o eco de palavras distantes. E cair sobre ele uma paz estranha. Morreu velho, mas soube sempre que as pessoas são o que acabara de comprovar — que a hipocrisia é, afinal, um hábito difícil de curar. E ele, que passara a vida a aviar remédios, sabia bem que há males para os quais não existe nem farmácia nem magia.