“Ama: Má viagem faças tu
caminho de Calecu…
Praza à virgem consagrada!
Lemos: Que é isso?
Ama: Nam é nada.
Lemos: Assi viva Berzabu.
Gil Vicente, in Auto da Índia
Dizem por aí que o Teatro anda velho, gasto, a cheirar a pó de cortina. Mentira deslavada, digna de um Auto mal contado. O Teatro é antigo, sim, mas como aqueles velhos sábios de Gil Vicente: manhosos, cheios de vícios, com a língua afiada e um talento especial para sobreviver a tudo. E a todos.
Imaginem o Teatro como personagem principal — entra em cena de capa rota, mas olhar vivo. Já foi expulso de praças, censurado por reis, ignorado por modas e trocado por ecrãs luminosos que prometiam mundos e fundos. Caiu, levantou-se, tropeçou outra vez. Houve dias em que falou para meia dúzia de gatos pingados e noites em que teve de gritar para ser ouvido. Drama? Sempre. Farsa? Também. Porque o Teatro nunca soube viver sem exagero.
Mas eis que, contra todas as profecias, surge a grande reviravolta: estreia dentro de dias uma nova peça — dizem que cheira a Gil Vicente, que tem riso fácil e crítica certeira. O Teatro, esse danado, volta a vestir-se de cores, a ensaiar falas diante do espelho e a cochichar segredos aos actores. E o milagre acontece: lotação esgotada. Bancos cheios, corações curiosos, expectativa no ar. O público regressa, não por nostalgia, mas por fome — fome de palavra dita, de corpo presente, de verdade imperfeita.
Aqui está a sua maior beleza: o Teatro não promete perfeição, promete encontro. Ri-se de si próprio, aponta o dedo aos poderosos, tropeça nas próprias falas e, ainda assim, segue em frente. É arte que respira, que erra, que vive. Uma arte plena de beleza justamente porque é humana.
No final, como manda a boa tradição vicentina, ninguém sai ileso — mas todos saem mais leves. O Teatro faz a vénia, cansado e feliz. Sobreviveu outra vez. E amanhã? Amanhã volta a entrar em cena, porque enquanto houver quem escute, quem ria e quem pense, o Teatro nunca terá o pano fechado.
Nunca terá esse pano fechado. E se alguém ainda duvidar, que entre na sala escura e observe: o Teatro pisca o olho, convida à cumplicidade e lembra-nos que o mundo, afinal, também é um palco um pouco torto. Entre máscaras e verdades, ensina-nos a rir do que dói e a pensar enquanto rimos — truque antigo, mas sempre eficaz. No meio das suas aventuras e desventuras, o Teatro cumpre o seu maior feito: sair de cena sem desaparecer, deixando-nos com vontade de voltar, porque há histórias que só fazem sentido quando são vividas ao vivo.


















